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O Oboé d´Amore

publicado em quinta-feira, 1 de maio de 2014
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A Saga do Oboé d´Amore
Hoje dia 1º de maio comemora-se o dia do trabalho e como trabalhador, amo meu trabalho e graças a ele consigo manter minha paixão pela música.

Vídeos ilustrativos com peças da música clássica no final do texto.


No fim do período barroco, alguns instrumentos musicais caíram em desuso. Vários tipos de instrumentos
de corda como alaúdes, violas d´amore e a família da flauta-doce ficaram relegados à música regional ou folclórica.
A família das palhetas duplas ficou reduzida apenas ao oboé e o fagote, que nesta época já tinham recebido alguns melhoramentos, instrumentos de tonalidades intermediárias, como oboé d´amore e corne inglês,
eram considerados supérfluos.

O termo D´AMORE  para instrumentos de corda, significava que possuíam cordas simpáticas que vibram por indução mecânica conforme a frequência das cordas principais. O mesmo termo para instrumentos de sopro significava que este instrumento era afinado uma terça abaixo do instrumento principal e possuía campana em forma de bulbo ou pera, isto devido o termo em alemão, Liebesfuss, que quer dizer pé de amor, devido o seu som mais meloso que o instrumento principal, no caso do oboé, era o oboé d´amore e era afinado em lá, uma terça abaixo do oboé normal.
Em algumas composições pós-barrocas e   pré-clássicas havia   instrumentos como, clarinete d´amore,
flauta d´amore e fagote d´amore, assim como o oboé d´amore, estes instrumentos foram descontinuados.

Porém ao oboé d´amore foi reservado outro destino, largamente utilizado nas cantatas de J.S. Bach, era tido como um instrumento principal. Há algumas passagens nas peças de Bach em que o oboé d´amore toca junto com o   oboé da caccia (precursor do corne inglês),    sendo o   primeiro     solista e o segundo, acompanhamento, deixando o oboé normal de fora.
Em um grande número de cantatas de Bach o oboé d´amore atuava na condição de solista, dialogando com
as vozes, substituindo o oboé normal. Seu timbre levemente mais grave e mais bonito, caiu nas graças de Bach como o instrumento ideal para o acompanhamento de árias para voz em suas cantatas. Pelo seu timbre pastoral era muito utilizado nas igrejas Luteranas no norte da Alemanha. Porém nem todos os compositores barrocos utilizaram-no, Handel que foi oboísta em sua juventude, jamais compôs para oboé d´amore, nem para oboé da caccia, portanto este instrumento não era conhecido na Inglaterra ou França no período barroco. Era restrito a uma pequena região na Alemanha. 

Oboé d´amore do período barroco fabricado em Nuremberg, Alemanha
por Jakob Denner (1681-1735), hoje no Cincinnati Art Museum,
Cincinnati - Ohio - EUA


Da mesma forma que o instrumento foi esquecido, assim foram as obras de Bach, até que em 1829
Felix Mendelssohn (1809-1847) as redescobriu, o compositor ficou impressionado com a harmonia composta por Bach e resolveu revivê-las. Quando foi estudar as partituras observou que havia outros tipos de oboé na pauta. Para a execução das peças, tentaram outros arranjos, como tocar a peça com clarinete (jamais ficaria bem, o timbre do clarinete não se assemelha tanto com a voz humana quanto o do oboé), porém para o bem de nossos ouvidos, logo sentiram que não havia ficado satisfatório. Mendelssohn apresentou a Paixão Segundo São Mateus, com a instrumentação que dispunha na ocasião, como comentado acima, as partes para oboé d´amore e oboé da caccia foram substituídas por clarinete. Mendelssohn acreditava que o corne inglês que dispunha na época, não possuía todo o volume de som que o oboé da caccia podia proporcionar. Conseguir um oboé d´amore e um oboé da caccia naquela ocasião era muito dificultoso, os que ainda sobreviveram estavam em museus, e mesmo que os conseguissem, como tocariam? Já que eram de uma mecânica e afinação totalmente diferente da usada na época, e quais músicos se aventurariam tocá-los? Como as peças não soaram bem com o clarinete, tentaram transportar para outras tonalidades e executá-los com os instrumentos disponíveis então, dó para o oboé normal e fá para o corne inglês, mesmo assim não atingiram o objetivo. Para satisfazer ouvidos mais exigentes, pensou-se em construir um instrumento que pudesse trazer
as cantatas de Bach novamente à sua real beleza, na entonação e timbre exigidos por ele. Não há registros que a família Triébert, o mais proemintente fabricante de oboés de Paris tenha construído oboés d´amore no período áureo da empresa de 1810 a 1878, nem dos luthiers alemães da época.
Somente em 1874, François Auguste Gevaert, diretor do Conservatório de Bruxelas, Bélgica, encomendou a Victor-Charles Mahillon (1841-1924), luthier belga, a construção de um oboé d´amore com a mecânica disponível na época. Charles Mahillon construiu um oboé d´amore de campana aberta na mecânica do
Triébert System 5, há um exemplar deste na coleção do Bate Institute na Universidade de Oxford na Inglaterra.

Em 1889, François Lorée fabricou um oboé d´amore já com mecânica do Sistema Conservatório, em corpo reto e campana fechada em pera como eram os oboés d´amore barrocos, e com ele ganhou uma medalha de prata na Exposição Universal de Paris daquele ano. A partir do oboé d´amore construído por Lorée, outros fabricantes passaram a oferecer este instrumento em seus catálogos.
O oboé d´amore foi logo adotado por compositores do pós-romântico como Richard Strauss (1864-1949), que o utilizou na Sinfonia Doméstica, Strauss se superou nas passagens para o instrumento, em harmonia com as violas, uníssono com os fagotes e apoiado pelo corne inglês, de forma que para um instrumento que estava até então desaparecido,
seu retorno foi triunfal.
Claude Debussy (1862-1918) por sua vez, incluiu-o em sua Imagens para Orquestra, onde o oboé d´amore toca belos solos, inspirados numa giga barroca.
Maurice Ravel (1875-1937) utilizou-o , no poema sinfônico La Course de Printemps e em 1928
no seu célebre Bolero.
Hoje as peças de Bach podem ser executadas no instrumento apropriado e soam tais como o Grande Mestre
as idealizou. O oboé d´amore foi o único representante dos instrumentos com este sufixo que ressuscitou após
100 anos de esquecimento e permanece nos dias atuais.
Na atualidade, muitas orquestras pop utilizam o oboé d´amore em seus arranjos de músicas de sucesso.
Pode-se ouví-lo em muitas performances da orquestra de Paul Mauriat, 101 Cordas, Franck Pourcel,
entre outros.



Oboé d´amore moderno da marca F. Lorée Paris


Vídeos Ilustrativos:

Bach: Concerto para oboé d´amore em lá maior BWV1055

Lotti: Concerto para oboé damore em lá maior

Bach: Concerto para oboé d´amore em lá maior BWV1055, primeiro movimento Allegro, com a Filarmônica de Berlim e Albrecht Mayer como solista, tocando um oboé d´amore com campana aberta.



 



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